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Publicado em · Produtividade

Suprimentos na obra: por que o material não chega e como parar de perder dias

Felipe Arancibia Felipe Arancibia Sr. Product Designer
7 min de leitura
Pintura orientalista de um mercador de barba branca e túnica bordô, montado num cavalo branco arreado de vermelho diante dos arcos de azulejo de um bazar, enquanto um homem de rosa ergue as duas mãos para lhe entregar um rolo de papel e os comerciantes sentados ao lado observam a cena

O suprimento de obra é o processo que vai desde detectar a necessidade de um material até tê-lo disponível na frente de serviço onde vai ser usado. Parece linear e não é: tem entre cinco e oito elos, cada um com o seu próprio prazo, e basta um falhar para que uma equipe inteira fique parada.

É a causa mais citada de dias perdidos na obra e, curiosamente, um dos processos pior desenhados da operação.

A cadeia completa

EloQuem controlaOnde se perde tempo
Detecção da necessidadeResidenteDetecta-se tarde, quando já falta
RequisiçãoResidenteAcumula-se para pedir «de uma vez»
AprovaçãoEscritórioEspera de assinatura sem prazo definido
Cotação e compraComprasBusca-se preço em vez de disponibilidade
Fabricação ou preparaçãoFornecedorPrazo real diferente do prometido
TransporteFornecedorSem visibilidade até chegar
Recebimento e descargaObraSem espaço, sem equipamento, sem quem receba
Transporte até a frenteObraO material está na obra mas não onde se usa

O último elo é o mais subestimado. Material na obra não é material disponível. Um palete de blocos no acesso, quando a equipe trabalha no nível 4, não serve até que alguém o suba.

Onde se rompe de verdade

A detecção tardia. A causa raiz. Quando a necessidade é detectada ao ver a frente vazia, o relógio de todos os elos seguintes começa tarde por definição. Não há compra rápida que compense uma detecção tardia.

O prazo prometido versus o real. Todo fornecedor promete um prazo e todo comprador experiente sabe que é otimista. Se ninguém registra o prazo real de entrega de cada fornecedor, o planejamento é feito com dados falsos, obra após obra.

A aprovação sem prazo. Uma requisição esperando assinatura é tempo puro. E como não há prazo comprometido, ninguém conta isso como demora.

O preço acima da disponibilidade. Compras otimiza aquilo que é medido nela, que normalmente é economia. Um fornecedor 8 % mais barato que entrega duas semanas depois pode custar três dias de equipe parada, que valem mais que a economia. Esse cálculo quase nunca é feito.

O recebimento improvisado. Chega o caminhão, não há quem receba, não há espaço de estoque, não há equipamento de descarga. O caminhão espera ou vai embora.

Como calcular quando pedir

O cálculo é simples e quase ninguém o torna explícito:

Data do pedido = Data de uso
               − prazo real do fornecedor
               − tempo de aprovação
               − tempo de recebimento e transporte
               − folga de segurança

Com números de exemplo para um material com prazo real de 15 dias:

ComponenteDias
Prazo real do fornecedor15
Aprovação interna3
Recebimento e transporte até a frente1
Folga5
Antecipação total24 dias

Ou seja: para usar o material no dia 60 do cronograma, é preciso pedi-lo no dia 36. E para pedi-lo no dia 36 é preciso saber no dia 30 que ele vai ser necessário, o que exige que alguém esteja olhando o cronograma para a frente.

A folga não é pessimismo, é a variabilidade do prazo. Se o fornecedor entrega entre 12 e 20 dias conforme o mês, planejar com 15 significa falhar metade das vezes.

Os três dados que é preciso ter

Não é preciso um sistema de compras. São precisos três registros.

Prazo real por fornecedor e por material. Não o prometido: o medido. Data do pedido e data de chegada efetiva, acumuladas. Depois de seis meses você tem a informação mais valiosa do seu departamento de compras.

Materiais críticos com a sua antecipação. Os cinco ou seis materiais que, se faltarem, param a obra. Com a antecipação calculada, revisada contra o cronograma.

Dias perdidos por falta de material, com o material e a causa. É o que transforma «estamos atrasados por suprimentos» num número e —isto importa— é o que sustenta um atraso de terceiros quando o material é de fornecimento do cliente.

O registro que protege você

Aqui há uma consequência que se subestima.

Quando o material é de fornecimento do cliente e não chega, você tem um atraso não imputável a você. Mas só se o registrou no dia em que aconteceu, com a causa, o material, e quanta gente ficou parada.

Sem esse registro contemporâneo, o atraso se presume seu. E como os mecanismos de reajuste calculam sobre o cronograma, um atraso que você não conseguiu comprovar como de terceiros também move a sua data de reajuste contra você.

Ou seja: o registro de um dia perdido por material vale muito mais que um dia.

O que dá para arrumar sem gastar

Cinco coisas concretas, nenhuma exige software nem pessoal adicional.

Prazo comprometido para as aprovações internas. Que uma requisição tenha 48 horas para ser aprovada, e que o descumprimento seja registrado.

Medir compras por disponibilidade, não só por preço. Acrescentar um indicador de entregas no prazo muda o comportamento em um mês.

Revisão semanal do cronograma com quatro semanas de antecedência. Olhar o que vai ser necessário em um mês e verificar se já foi pedido. Quinze minutos por semana.

Um ponto único de recebimento com responsável designado. Que o caminhão saiba a quem procurar e que haja quem receba e assine.

Registrar o dia perdido no dia em que acontece, com a causa e o material. É o registro que depois vale dinheiro.

Perguntas frequentes

Convém comprar tudo antecipadamente?
Reduz o risco de falta e aumenta o de deterioração, furto, obsolescência e capital imobilizado. A resposta razoável é escalonar: antecipação alta nos materiais críticos, entregas programadas nos de consumo contínuo.
Como negocio prazos reais com um fornecedor?
Com o histórico dele. Um fornecedor a quem você mostra que as suas últimas seis entregas levaram em média 19 dias quando prometia 12 tem pouco a discutir. Sem esse dado, a conversa é de percepções.
O que faço se o material for de fornecimento do cliente?
Registre com o mesmo rigor, ou mais. Data do pedido, data comprometida, data real, e dias de equipe parada. É a evidência que sustenta a prorrogação de prazo.
Quanta folga é razoável?
Depende da variabilidade do fornecedor, não do prazo. Um fornecedor consistente admite folga curta; um errático precisa de folga proporcional à sua dispersão. Se você não mede a variabilidade, não consegue dimensioná-la.
Vale a pena ter um almoxarife dedicado?
Em obras médias, quase sempre. O custo da posição costuma ser menor que o dos dias perdidos por recebimentos improvisados e por material que está na obra mas não na frente de serviço.
SOBRE O AUTOR
Felipe Arancibia
Felipe Arancibia
Sr. Product Designer

Chileno, desenhando para a América Latina. Do research em campo tira o que realmente importa para os clientes, e com isso monta produtos que pessoas não técnicas adotam sozinhas —jurídico, educação, contabilidade— e que aparecem na produtividade já na primeira semana.

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