Preços unitários ou preço global: o que muda e quem assume cada risco
O regime de contratação define como se determina o que se paga por uma obra. Em preços unitários pactua-se um preço por unidade de cada serviço e paga-se a quantidade efetivamente executada. Em preço global —também chamado empreitada global ou lump sum— pactua-se um valor total por um escopo definido, e esse valor não varia com as quantidades reais.
A diferença parece administrativa e não é. Define quem assume o risco de as quantidades reais não coincidirem com as do projeto.
Quem assume o quê
| Risco | Preços unitários | Preço global |
|---|---|---|
| Quantidade diferente da prevista | Cliente | Contratada |
| Preço dos insumos | Compartilhado, conforme cláusula de reajuste | Contratada, salvo cláusula |
| Rendimento e produtividade | Contratada | Contratada |
| Erros do projeto | Cliente, via aditivos | Discutível, e aí está o problema |
| Escopo mal definido | Resolve-se medindo | Resolve-se brigando |
A última linha é onde vive a maioria dos conflitos de preço global. Se o escopo não ficou perfeitamente definido, cada trabalho duvidoso vira uma discussão sobre se estava incluído ou não. Em preços unitários essa discussão não existe: mede-se o executado e paga-se.
Preços unitários
Como funciona. Uma planilha de serviços com a sua unidade, quantidade estimada e preço unitário. Mede-se o executado e paga-se a quantidade real.
A favor
- O risco de quantidade é do cliente, que foi quem definiu o projeto
- Permite começar com projeto não completamente terminado
- Os aditivos têm mecânica clara
- O reajuste por inflação é mais fácil de estruturar, porque há componentes identificáveis
- É transparente: cada real tem um serviço e uma quantidade por trás
Contra
- Exige medir tudo, o tempo todo. A carga administrativa é real e contínua
- O valor final é incerto até o encerramento
- Gera atrito permanente sobre quantidades e critérios de medição
- Uma planilha mal montada —serviços ambíguos, unidades mal escolhidas— envenena a obra inteira
O ponto crítico: em preços unitários, a qualidade da planilha de serviços e dos critérios de medição determina quanta discussão você vai ter durante doze meses. Serviços vagos e critérios não acordados são uma fábrica de observações.
Preço global
Como funciona. Um valor total por um escopo definido. O pagamento costuma ser associado a marcos ou a percentuais de avanço, não a medição unitária.
A favor
- O cliente conhece o valor desde o início
- Muitíssimo menos carga administrativa: não é preciso medir para cobrar
- A contratada captura o benefício se for mais eficiente do que o previsto
- O encerramento é mais simples
Contra
- O risco de quantidade é da contratada, incluídos os erros do projeto
- Exige um projeto completo e bem definido no momento de ofertar
- Toda mudança vira negociação, sem mecânica clara
- Incentiva a economizar no que não se vê
- Se o escopo é ambíguo, a ambiguidade se resolve brigando
O ponto crítico: em preço global, a margem se decide na etapa de oferta. Um levantamento de quantidades otimista no estudo se paga durante toda a obra sem possibilidade de corrigir.
Quando cada um convém
| Situação | Regime |
|---|---|
| Projeto executivo completo e verificado | Preço global |
| Projeto incompleto ou em desenvolvimento | Preços unitários |
| Alta incerteza no subsolo ou no existente | Preços unitários |
| Obra repetitiva e conhecida | Preço global |
| Reforma ou intervenção sobre o existente | Preços unitários, quase sempre |
| Contratada com pouca capacidade de absorver risco | Preços unitários |
| Cliente que precisa de certeza de valor | Preço global |
| Prazo longo com inflação relevante | Preços unitários, mais fácil de reajustar |
A linha da reforma merece ênfase: preço global sobre construção existente é das decisões que mais contratadas quebraram. Ninguém sabe o que há atrás da parede até abri-la, e em preço global essa surpresa é sua.
O regime misto
Existe, é pouco usado, e costuma ser a melhor resposta.
Contrata-se por preço global o que está bem definido —estrutura, acabamentos de um projeto terminado— e por preços unitários o incerto: fundação profunda, demolições, movimentação de terra, intervenção sobre o existente.
Exige mais trabalho ao montar o contrato e distribui o risco onde cada parte o maneja melhor. Se você está negociando e lhe oferecem preço global sobre algo genuinamente incerto, propor um regime misto é mais produtivo do que discutir o preço.
O que não muda entre regimes
Vale a pena dizer porque há um mal-entendido frequente: em preço global também é preciso medir.
Não para cobrar, mas para saber se você está ganhando ou perdendo. Num contrato por preços unitários, a medição é obrigatória e por isso é feita. Em preço global ninguém a exige de você, e por isso muitas obras por preço global descobrem a perda no final.
É o pior dos mundos: o regime que mais castiga o desvio de quantidades é também aquele em que menos se mede.
O mesmo com o rendimento, os dias perdidos e o consumo de material. Os indicadores físicos não dependem do regime de contratação. O que muda é quem obriga você a mantê-los.
Perguntas frequentes
- Em preço global posso cobrar quantidades adicionais?
- Só se corresponderem a uma mudança de escopo, não ao fato de as quantidades reais terem saído maiores. É exatamente essa a distinção que se discute, e ela se resolve pelo quão bem o escopo ficou definido no contrato.
- O que acontece se eu executar menos quantidade do que a prevista em preços unitários?
- Você cobra o executado. Em preço global você cobra o valor pactuado. É o mesmo mecanismo funcionando a seu favor.
- Qual é mais comum em obra pública?
- Depende do país e do tipo de obra. Várias normas da região contemplam ambos os regimes e também esquemas mistos e de custo reembolsável, deixando a escolha para o processo de contratação.
- Como protejo um contrato por preço global?
- Com escopo definido com precisão, uma lista explícita de exclusões, um mecanismo claro para mudanças e uma cláusula de reajuste se o prazo for longo. A lista de exclusões é o que menos se faz e o que mais discussões evita.
- Posso mudar de regime no meio da obra?
- É uma alteração contratual substancial e em obra pública costuma ter restrições importantes. É muito mais fácil escolher bem no início do que corrigir depois.
Fundador e CEO da Paladio. Há mais de 15 anos cria produtos financeiros que impactam a vida de milhões de pessoas. Escreve sobre o que vê na obra: como se mede o avanço de verdade e onde o dinheiro se perde.
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