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Curva S de avanço: como lê-la e o que fazer se você saiu do cronograma

Carlos Pérez (Comandos) Carlos Pérez (Comandos) CEO da Paladio
8 min de leitura
Gravura antiga de uma fita de estrada em forma de S que sai de um vale e se curva rumo às nuvens; um engenheiro solitário de capacete a sobe pelo meio com uma prancha enrolada debaixo do braço, minúsculo diante da sua escala, e ao fundo do vale uma obra desenhada a bico de pena

A curva S de avanço é um gráfico que mostra o avanço acumulado de uma obra ao longo do tempo, comparando o previsto com o efetivamente executado. Recebe esse nome pela forma que assume: começo lento, aceleração na etapa intermediária e desaceleração no fechamento. É a ferramenta mais usada para responder num relance se uma obra vai bem ou vai mal.

O problema é que quase todo mundo olha para ela e pouquíssima gente a usa para decidir. Ver que a linha real está abaixo da prevista não é informação acionável. Acionável é entender por quê, quanto, e o que acontece se não for corrigido.

Por que tem forma de S

Não é uma convenção gráfica. É como uma obra se comporta de verdade.

O começo é lento. Instalação do canteiro, mobilização, licenças, fundação. Consome-se tempo e produz-se pouco avanço visível. As primeiras semanas quase sempre parecem um fracasso e não são.

A etapa intermediária é rápida. Estrutura e alvenaria, com várias frentes abertas e equipes em ritmo. É onde se acumula a maior parte do avanço.

O fechamento volta a ser lento. Acabamentos, detalhes, testes, correção de apontamentos, entrega. Muito serviço de baixo valor e alta dispersão. Os últimos 10 % do avanço costumam consumir 20 % do prazo.

Entender isso importa para a leitura. Uma obra que aos 20 % do prazo tem 10 % de avanço pode estar perfeitamente bem. A mesma proporção aos 60 % do prazo é uma emergência.

Como se constrói

Você precisa de duas séries de dados acumulados no tempo.

A curva prevista sai do cronograma. Para cada período, o percentual acumulado que você deveria ter executado. Calcula-se distribuindo o valor de cada item ao longo da sua duração prevista e somando.

A curva real sai do seu registro de avanço. Para cada período, o percentual acumulado efetivamente executado.

A pergunta que sempre aparece: avanço físico ou avanço financeiro?

TipoComo se medeQuando usar
Avanço físicoQuantidades executadas sobre quantidades totais, ponderadasPara controlar a execução
Avanço financeiroValor executado sobre valor total do contratoPara controlar o caixa e o recebimento

Não são a mesma coisa e convém levar os dois. Uma obra pode ir bem no físico e mal no financeiro se você executou muito dos itens baratos e pouco dos caros. A versão ponderada por valor —cada item pesa o que representa no orçamento— é a que melhor reflete a realidade, e é a que a maioria dos contratos usa.

Um exemplo

Obra de US$ 2.400.000 com prazo de 300 dias. Estamos no dia 120.

DiaPrevisto acumuladoReal acumuladoDiferença
303 %2 %−1 pp
6010 %7 %−3 pp
9020 %15 %−5 pp
12032 %24 %−8 pp

Em dinheiro, no dia 120: você deveria ter US$ 768.000 executados e tem US$ 576.000. Uma diferença de US$ 192.000 que não faturou.

Mas o dado mais útil não é a diferença em pontos percentuais. É a relação entre as duas curvas:

                 Avanço real         24
Índice = ─────────────────────── = ──── = 0,75
              Avanço previsto        32

Um índice de 0,75 significa que você avança a 75 % da velocidade prevista. Esse número é bem mais útil que «estamos 8 pontos abaixo», porque não depende do momento da obra e pode ser projetado.

Como ler a diferença

Três perguntas, nesta ordem.

A diferença está abrindo, fechando ou estável? É a primeira coisa e quase ninguém olha. No exemplo, a diferença foi de 1 para 3, para 5, para 8 pontos: está abrindo de forma sustentada. Isso é pior que uma diferença grande porém estável, porque significa que a causa continua ativa.

É um problema de velocidade ou de início tardio? Não é a mesma coisa ter começado duas semanas atrasado e avançar no ritmo previsto, ou ter começado no prazo e avançar mais devagar. O primeiro se recupera comprimindo ou sobrepondo atividades. O segundo não se recupera sem mudar algo de fundo, porque a causa continua ali.

Quais itens explicam a diferença? A curva agregada esconde a informação útil. Quase sempre o atraso se concentra em dois ou três itens e o resto vai bem. Desagregar por item é o que transforma a curva em diagnóstico.

O que fazer quando você está abaixo

  1. Verifique se a curva prevista ainda é válida. Se houve mudanças de escopo, aditivos ou paralisações autorizadas e o cronograma nunca foi atualizado, você está medindo contra uma referência que já não existe. Comparar com um cronograma obsoleto produz discussões falsas.
  2. Identifique se a restrição é de recursos ou de sequência. Se o problema é capacidade —falta gente, falta equipamento— a solução é aumentar recursos, e dá para quantificar. Se o problema é sequência —uma atividade predecessora que não libera a frente— colocar mais gente não serve de nada e só aumenta o custo.
  3. Decida entre recuperar e reprogramar. São caminhos distintos.
  4. Documente as causas, que é o que mais se descuida. Dias perdidos por chuva, entregas atrasadas de material do cliente, frentes não liberadas, instruções que chegaram tarde. Tudo com data e evidência contemporânea. Uma diferença explicada com registro datado é a base de um pedido de prorrogação de prazo. A mesma diferença sem registro é responsabilidade sua por padrão.
RecuperarReprogramar
Aumentar equipes ou turnosAtualizar a data de término
Sobrepor atividadesRenegociar marcos intermediários
Aumenta o custoPode implicar multas
Só funciona se a restrição for de recursosÉ o honesto se a restrição for estrutural

O erro mais comum

Atualizar a curva uma vez por mês.

Com atualização mensal você fica sabendo de um problema entre 15 e 30 dias depois de ele começar, e a essa altura a diferença já abriu. No exemplo, a tendência era visível desde o dia 60: a diferença dobrou três vezes seguidas. Quem atualiza semanalmente vê esse padrão na semana 8. Quem atualiza mensalmente vê no dia 120, quando corrigir custa o triplo.

A frequência de atualização determina a velocidade com que você consegue reagir. É a decisão mais barata que dá para tomar sobre controle de obra e também a que mais se adia, porque atualizar a curva exige ter o avanço medido, e medir avanço diariamente é justamente o hábito que custa instalar.

Perguntas frequentes

De quanto em quanto tempo devo atualizar a curva S?
Semanal, no mínimo. Em obras de prazo curto ou alta velocidade, diária. Mensal serve para reportar para cima, não para decidir.
Qual a diferença entre curva S e cronograma?
O cronograma mostra qual atividade vai quando e em que sequência. A curva S resume tudo isso numa única linha de avanço acumulado. A curva deriva do cronograma, não o substitui: quando a curva aponta um problema, o cronograma é onde você vai buscar a causa.
Posso ter uma curva S por item?
Sim, e é o mais útil que dá para fazer com a ferramenta. A curva agregada diz que há um problema; as curvas por item dizem onde. Concentre nos itens que representam a maior parte do orçamento.
Uma curva real acima da prevista é sempre boa notícia?
Não necessariamente. Pode significar que você adiantou os itens fáceis e deixou os complexos para o final, o que joga o risco para o fechamento, quando há menos margem. Vale verificar do que é feita essa dianteira.
Como trato os aditivos na curva?
Atualizando a curva prevista para incorporar o novo escopo, com a data da atualização, e guardando a versão anterior. Se você misturar escopo novo sem atualizar a referência, a curva deixa de significar algo e você perde a rastreabilidade do porquê mudou.
SOBRE O AUTOR
Carlos Pérez (Comandos)
Carlos Pérez (Comandos)
CEO da Paladio

Fundador e CEO da Paladio. Há mais de 15 anos cria produtos financeiros que impactam a vida de milhões de pessoas. Escreve sobre o que vê na obra: como se mede o avanço de verdade e onde o dinheiro se perde.

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