O dia real de um engenheiro residente: para onde vai o tempo
O engenheiro residente é o responsável técnico pela execução em campo: dirige, supervisiona e controla que a obra seja construída conforme o projeto, o orçamento e o cronograma. Essa é a definição do cargo. Na prática, boa parte da jornada se vai em tarefas administrativas que não exigem nenhum critério técnico dele, e o desequilíbrio é tão comum que quase ninguém questiona.
Este artigo descreve um dia típico e o desmembra por tipo de atividade. O objetivo não é reclamar: é identificar que parte dessa carga é intrínseca ao cargo e que parte é um problema de processo que dá para resolver.
Nota: o desmembramento a seguir é uma reconstrução a partir de observação de campo e conversas com residentes, não um estudo formal de tempos. Serve como referência qualitativa. Se você se reconhecer nele, essa é exatamente a utilidade que ele busca.
Um dia
6h40 · Chegada. Antes das equipes. Uma volta rápida para ver como ficou a frente ontem e que material chegou.
7h00 · Início. Distribuição das equipes com o mestre. Quem vai para qual frente, do que precisam. Dez ou quinze minutos que definem a produção do dia.
7h20 · Primeira ronda. Verificação do que vai ser executado: níveis, locação, se a frente está liberada. É aqui que o cargo justifica sua existência.
8h30 · Primeira interrupção. Falta material numa frente, ou chega um subempreiteiro com uma dúvida que só o residente resolve, ou o fornecedor está no portão sem avisar.
9h00 · Supervisão de uma concretagem ou de outra atividade crítica. Presença obrigatória. Pode levar uma hora ou quatro.
11h00 · Ligações e coordenação. Escritório central, fornecedores, o fiscal do cliente. Fragmentado, impossível de agendar.
12h00 · Ronda de verificação. Medição do que foi executado de manhã, anotações na caderneta.
13h00 · Almoço, com interrupções.
14h00 · Segundo bloco de execução. Rondas, resolução de imprevistos, atendimento à fiscalização se ela veio vistoriar.
16h00 · Coordenação do dia seguinte. Material a pedir, frentes a liberar, equipes a realocar.
17h00 · Fechamento das equipes. Verificação final, presença, o que ficou pendente.
17h30 · A parte que ninguém vê. Lançar no sistema o que anotou na caderneta durante o dia. Relatório diário. E-mails. Fotos para baixar, nomear e organizar. Se for fim de mês, os memoriais de medição.
19h00 ou mais tarde · Saída.
O desmembramento
| Atividade | Horas | % da jornada |
|---|---|---|
| Supervisão técnica em campo | 2,5 | 20 % |
| Coordenação com equipes e subempreiteiros | 2,0 | 16 % |
| Atenção a imprevistos | 2,0 | 16 % |
| Deslocamentos internos e esperas | 1,5 | 12 % |
| Administração, lançamento e relatórios | 3,5 | 28 % |
| Ligações e e-mails de coordenação externa | 1,0 | 8 % |
| Total | 12,5 | 100 % |
O dado incômodo: a supervisão técnica —a única coisa que exige um diploma de engenheiro— ocupa um quinto da jornada. A administração ocupa mais.
Onde está o desperdício de verdade
Nem toda carga administrativa é desperdício. Um residente tem de reportar, coordenar e documentar; faz parte do trabalho. O desperdício está em três coisas concretas.
O lançamento em dobro. Anotar na caderneta durante o dia e lançar a mesma coisa no sistema à tarde. É literalmente o mesmo dado escrito duas vezes. É a maior fonte individual de tempo perdido, e a mais fácil de eliminar.
A reconstrução de memória. Tudo que não foi anotado na hora precisa ser lembrado horas ou dias depois. Consome tempo e produz dados piores. A medição do dia 28 para montar o memorial é o caso extremo.
A busca por informação. Achar a foto de três semanas atrás, o e-mail em que o cliente autorizou alguma coisa, a revisão vigente do projeto. Quando o registro está espalhado entre caderneta, galeria do celular, WhatsApp e e-mail, buscar custa mais do que registrar.
Entre as três, é razoável estimar de uma hora e meia a duas horas por dia. Oito a dez horas por semana. Perto de um dia inteiro de trabalho por semana, em tarefas que não produzem nada.
Quanto custa
Vale a pena olhar em dinheiro, mesmo que de forma aproximada.
Se um residente custa à empresa $2.500 por mês com encargos, a hora dele vale por volta de $12. Duas horas diárias de desperdício dão uns $500 por mês por residente. Com cinco residentes, $30.000 por ano.
Mas o custo direto é o menor. O custo real é de segunda ordem:
Decisões tardias. O tempo que vai para a administração é tempo que não vai para detectar problemas em campo. Um problema de qualidade detectado no mesmo dia custa uma fração do que custa detectado na semana 3.
Dados de pior qualidade. Um relatório reconstruído de memória às sete da noite tem menos detalhe e mais erros do que um capturado na hora. E esse relatório é o insumo das medições, do controle de custos e de qualquer pleito futuro.
Rotatividade. Bons residentes são escassos e caros de repor. Sair às sete todos os dias, para fazer trabalho de digitação, é uma das razões pelas quais eles vão embora.
O que dá para mudar
Registrar uma só vez, na hora. É a intervenção de maior impacto. Não se trata de reportar menos, e sim de que o registro que você já faz em campo seja o registro definitivo, sem transcrição posterior.
Levar o registro para o canal que ele já usa. Qualquer ferramenta que exija abrir um aplicativo separado, de mãos sujas, vai perder para a caderneta. A caderneta ganha porque não tem atrito, não porque seja melhor.
Separar o que exige critério do que não exige. Pedir material, avisar de uma entrega, confirmar presença: nada disso precisa do residente. Boa parte da coordenação dá para delegar se existir um canal onde a informação chegue estruturada.
Reduzir a busca com um registro único. Que tudo —notas, fotos, medições, aceites— viva num mesmo lugar consultável por data e por frente. É menos glamouroso que qualquer função avançada e economiza mais tempo.
Perguntas frequentes
- Quantas obras um residente consegue tocar ao mesmo tempo?
- Depende do tamanho e da complexidade, mas quem costuma fixar o teto é a carga administrativa, não a capacidade técnica. Um residente que gasta 28 % da jornada digitando dificilmente sustenta mais de duas obras. Reduzir essa carga é o que permite crescer sem contratar.
- Qual é a diferença entre residente e superintendente?
- Varia por país e por empresa. Em geral o residente responde por uma obra específica e vive nela; o superintendente acompanha várias e distribui recursos entre elas. Em obras pequenas a mesma pessoa faz as duas coisas.
- O residente deve manter pessoalmente o diário de obra?
- Normalmente sim, porque é quem tem a responsabilidade técnica e quem pode dar fé do ocorrido. Pode se apoiar num auxiliar para a digitação, mas a responsabilidade e o aceite são dele e não se delegam.
- Como se mede o desempenho de um residente?
- Os indicadores usuais são avanço contra cronograma, desvio de custo, incidentes de segurança e observações de qualidade. Vale acrescentar um que quase ninguém mede: a taxa de rejeição das medições, que reflete diretamente a qualidade do registro dele.
- Vale a pena contratar um auxiliar só para a parte administrativa?
- Pode fazer sentido em obras grandes. Em obras médias, o custo do auxiliar costuma ser maior que o de resolver o problema na origem, e ainda acrescenta um elo de transcrição, que é justamente onde a informação se perde.
Chileno, desenhando para a América Latina. Do research em campo tira o que realmente importa para os clientes, e com isso monta produtos que pessoas não técnicas adotam sozinhas —jurídico, educação, contabilidade— e que aparecem na produtividade já na primeira semana.
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