Produtividade orçada vs produtividade real: por que sempre há diferença
A produtividade orçada é o valor de rendimento assumido ao calcular o preço unitário de um serviço. É uma média construída a partir de dados históricos, manuais de custos ou experiência, sob condições consideradas normais. A produtividade real é o que a sua equipe efetivamente produz na sua obra. Quase nunca são iguais, e essa diferença é a margem do serviço.
Há uma cena que se repete em todas as obras. O engenheiro residente informa que a equipe vai bem. O escritório técnico revisa o fechamento do mês e o serviço vem 20 % acima do orçado. Ninguém mentiu: os dois estão olhando números diferentes.
De onde sai o número da composição de preços unitários
Essa produtividade não é uma medição da sua obra. Vem de uma de três fontes, e cada uma tem o seu viés.
- Manuais e bancos de dados de custos. Médias amplas que supõem condições padrão. Úteis como ponto de partida, cegas ao seu contexto específico.
- Histórico da empresa. Muito melhor, se de fato estiver sendo medido. Na maioria das construtoras o «histórico» é o que alguém lembra de uma obra parecida de três anos atrás.
- Critério do orçamentista. Um número que reflete experiência real, e também a pressão de que o orçamento tem que ganhar a licitação. Uma produtividade otimista baixa o preço e melhora as chances de adjudicação. É um viés estrutural e convém nomeá-lo.
Nos três casos, a produtividade orçada descreve uma obra média. A sua não é.
As sete razões da diferença
- Curva de aprendizado. As primeiras semanas de qualquer serviço rendem menos. A equipe se acomoda, encontra o seu ritmo, resolve o acesso e o transporte. A composição assume regime; a obra começa na partida.
- Repetitividade. Cem metros de muro iguais em um trecho rendem muito mais que os mesmos cem metros repartidos em seis frentes com geometrias diferentes. A composição não distingue.
- Altura e transporte. O mesmo serviço no térreo e no nível 8 não custa o mesmo. Se a planilha não separa por nível, a produtividade se degrada conforme a obra sobe e o orçamento não previu.
- Interferências. Outra equipe ocupando a frente, uma instalação que chega tarde, um andaime que é preciso mover. A composição assume frente livre. A obra real quase nunca tem.
- Qualidade e disponibilidade do material. Bloco lascado, argamassa com dosagem irregular, entregas parciais. Tudo isso se paga em tempo de mão de obra.
- Composição e experiência da equipe. A composição assume uma equipe tipo. Se o seu pedreiro tem dois anos de experiência e o orçamento assumiu dez, a diferença é real e é previsível.
- Clima e horário. Calor extremo, chuva, jornadas curtas por horário de acesso restrito. Tudo reduz as horas efetivas dentro de uma jornada nominal.
Quanta diferença é normal
Não há norma que fixe isso, mas como marco de trabalho:
| Desvio vs o orçado | Leitura |
|---|---|
| 0 a 10 % | Ruído normal. Não exige ação. |
| 10 a 20 % | Esperado, sobretudo na partida. Vigiar a tendência. |
| 20 a 30 % | Sinal. Há uma causa identificável e vale a pena procurá-la. |
| Mais de 30 % sustentado | Ou a composição estava errada, ou há um problema real de execução. |
A palavra-chave é sustentado. Uma semana a 35 % pode ser uma semana ruim. Quatro semanas a 35 % é um desvio estrutural, e a diferença entre detectá-lo na semana 2 ou na semana 8 é toda a diferença entre corrigir e explicar.
O que fazer quando a lacuna aparece
- Verifique que está comparando a mesma coisa. É surpreendentemente frequente que a unidade de medição no campo não seja a da planilha, ou que a quantidade executada inclua trabalho que o serviço não cobre. Antes de concluir que a equipe rende mal, confirme que o numerador e o denominador correspondem.
- Separe produtividade de interferência. Se a equipe rende bem nos dias em que trabalha mas perde dois dias em cada dez esperando material, o problema não está na equipe. É um problema de logística e se resolve em outro lugar.
- Decida se corrige a execução ou corrige a previsão. São dois caminhos distintos e é preciso escolher conscientemente. Se a causa é removível — acesso, abastecimento, sequência —, corrige-se e a produtividade sobe. Se é estrutural — a composição assumiu condições que esta obra nunca vai ter —, o honesto é atualizar a projeção de prazo e custo com a produtividade real, e avisar cedo. Um atraso anunciado na semana 3 é um problema de programação. O mesmo atraso descoberto na semana 12 é uma crise.
- Guarde o dado. A produtividade real medida nesta obra é o melhor insumo possível para orçar a próxima. A maioria das construtoras desperdiça essa informação porque nunca é registrada de forma consultável. É a vantagem cumulativa mais barata que existe neste negócio e quase ninguém a aproveita.
Perguntas frequentes
- Devo atualizar a composição de preços no meio da obra se a produtividade real for diferente?
- A composição contratual normalmente não se modifica: é a base do preço pactuado. O que você deve atualizar é a sua projeção interna de custo e prazo. São dois documentos distintos e confundi-los é um erro caro: um é o que você vai receber, o outro é o que vai lhe custar.
- Uma produtividade real melhor que a orçada é boa notícia?
- Quase sempre sim, é margem. Mas vale verificar que não se esteja ganhando velocidade à custa da qualidade, porque o retrabalho aparece depois e se paga inteiro.
- Como justifico ao cliente um desvio de produtividade?
- Com registro datado. Dias perdidos com causa, condições da frente, entregas de material atrasadas, tudo documentado no momento em que aconteceu. Um desvio explicado com evidência contemporânea é uma conversa; explicado de memória três meses depois é uma discussão que se perde.
- Vale a pena medir produtividade em serviços pequenos?
- Se representam menos de 2 ou 3 % do orçamento, o esforço de medição não se paga. Concentre a medição nos serviços que concentram o custo. A regra de Pareto se aplica com bastante fidelidade.
Fundador e CEO da Paladio. Há mais de 15 anos cria produtos financeiros que impactam a vida de milhões de pessoas. Escreve sobre o que vê na obra: como se mede o avanço de verdade e onde o dinheiro se perde.
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