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Produtividade orçada vs produtividade real: por que sempre há diferença

Carlos Pérez (Comandos) Carlos Pérez (Comandos) CEO da Paladio
6 min de leitura
Ilustração a lápis de cor de duas casas idênticas em um campo: a da esquerda desenhada como uma planta perfeita, a da direita construída e ainda com andaimes, e um topógrafo olhando entre as duas

A produtividade orçada é o valor de rendimento assumido ao calcular o preço unitário de um serviço. É uma média construída a partir de dados históricos, manuais de custos ou experiência, sob condições consideradas normais. A produtividade real é o que a sua equipe efetivamente produz na sua obra. Quase nunca são iguais, e essa diferença é a margem do serviço.

Há uma cena que se repete em todas as obras. O engenheiro residente informa que a equipe vai bem. O escritório técnico revisa o fechamento do mês e o serviço vem 20 % acima do orçado. Ninguém mentiu: os dois estão olhando números diferentes.

De onde sai o número da composição de preços unitários

Essa produtividade não é uma medição da sua obra. Vem de uma de três fontes, e cada uma tem o seu viés.

  1. Manuais e bancos de dados de custos. Médias amplas que supõem condições padrão. Úteis como ponto de partida, cegas ao seu contexto específico.
  2. Histórico da empresa. Muito melhor, se de fato estiver sendo medido. Na maioria das construtoras o «histórico» é o que alguém lembra de uma obra parecida de três anos atrás.
  3. Critério do orçamentista. Um número que reflete experiência real, e também a pressão de que o orçamento tem que ganhar a licitação. Uma produtividade otimista baixa o preço e melhora as chances de adjudicação. É um viés estrutural e convém nomeá-lo.

Nos três casos, a produtividade orçada descreve uma obra média. A sua não é.

As sete razões da diferença

  1. Curva de aprendizado. As primeiras semanas de qualquer serviço rendem menos. A equipe se acomoda, encontra o seu ritmo, resolve o acesso e o transporte. A composição assume regime; a obra começa na partida.
  2. Repetitividade. Cem metros de muro iguais em um trecho rendem muito mais que os mesmos cem metros repartidos em seis frentes com geometrias diferentes. A composição não distingue.
  3. Altura e transporte. O mesmo serviço no térreo e no nível 8 não custa o mesmo. Se a planilha não separa por nível, a produtividade se degrada conforme a obra sobe e o orçamento não previu.
  4. Interferências. Outra equipe ocupando a frente, uma instalação que chega tarde, um andaime que é preciso mover. A composição assume frente livre. A obra real quase nunca tem.
  5. Qualidade e disponibilidade do material. Bloco lascado, argamassa com dosagem irregular, entregas parciais. Tudo isso se paga em tempo de mão de obra.
  6. Composição e experiência da equipe. A composição assume uma equipe tipo. Se o seu pedreiro tem dois anos de experiência e o orçamento assumiu dez, a diferença é real e é previsível.
  7. Clima e horário. Calor extremo, chuva, jornadas curtas por horário de acesso restrito. Tudo reduz as horas efetivas dentro de uma jornada nominal.

Quanta diferença é normal

Não há norma que fixe isso, mas como marco de trabalho:

Desvio vs o orçadoLeitura
0 a 10 %Ruído normal. Não exige ação.
10 a 20 %Esperado, sobretudo na partida. Vigiar a tendência.
20 a 30 %Sinal. Há uma causa identificável e vale a pena procurá-la.
Mais de 30 % sustentadoOu a composição estava errada, ou há um problema real de execução.

A palavra-chave é sustentado. Uma semana a 35 % pode ser uma semana ruim. Quatro semanas a 35 % é um desvio estrutural, e a diferença entre detectá-lo na semana 2 ou na semana 8 é toda a diferença entre corrigir e explicar.

O que fazer quando a lacuna aparece

  1. Verifique que está comparando a mesma coisa. É surpreendentemente frequente que a unidade de medição no campo não seja a da planilha, ou que a quantidade executada inclua trabalho que o serviço não cobre. Antes de concluir que a equipe rende mal, confirme que o numerador e o denominador correspondem.
  2. Separe produtividade de interferência. Se a equipe rende bem nos dias em que trabalha mas perde dois dias em cada dez esperando material, o problema não está na equipe. É um problema de logística e se resolve em outro lugar.
  3. Decida se corrige a execução ou corrige a previsão. São dois caminhos distintos e é preciso escolher conscientemente. Se a causa é removível — acesso, abastecimento, sequência —, corrige-se e a produtividade sobe. Se é estrutural — a composição assumiu condições que esta obra nunca vai ter —, o honesto é atualizar a projeção de prazo e custo com a produtividade real, e avisar cedo. Um atraso anunciado na semana 3 é um problema de programação. O mesmo atraso descoberto na semana 12 é uma crise.
  4. Guarde o dado. A produtividade real medida nesta obra é o melhor insumo possível para orçar a próxima. A maioria das construtoras desperdiça essa informação porque nunca é registrada de forma consultável. É a vantagem cumulativa mais barata que existe neste negócio e quase ninguém a aproveita.

Perguntas frequentes

Devo atualizar a composição de preços no meio da obra se a produtividade real for diferente?
A composição contratual normalmente não se modifica: é a base do preço pactuado. O que você deve atualizar é a sua projeção interna de custo e prazo. São dois documentos distintos e confundi-los é um erro caro: um é o que você vai receber, o outro é o que vai lhe custar.
Uma produtividade real melhor que a orçada é boa notícia?
Quase sempre sim, é margem. Mas vale verificar que não se esteja ganhando velocidade à custa da qualidade, porque o retrabalho aparece depois e se paga inteiro.
Como justifico ao cliente um desvio de produtividade?
Com registro datado. Dias perdidos com causa, condições da frente, entregas de material atrasadas, tudo documentado no momento em que aconteceu. Um desvio explicado com evidência contemporânea é uma conversa; explicado de memória três meses depois é uma discussão que se perde.
Vale a pena medir produtividade em serviços pequenos?
Se representam menos de 2 ou 3 % do orçamento, o esforço de medição não se paga. Concentre a medição nos serviços que concentram o custo. A regra de Pareto se aplica com bastante fidelidade.
SOBRE O AUTOR
Carlos Pérez (Comandos)
Carlos Pérez (Comandos)
CEO da Paladio

Fundador e CEO da Paladio. Há mais de 15 anos cria produtos financeiros que impactam a vida de milhões de pessoas. Escreve sobre o que vê na obra: como se mede o avanço de verdade e onde o dinheiro se perde.

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