Almoxarifado e desperdício: por onde vai o material que você comprou
O desperdício de material é a diferença entre o que foi consumido e o que a obra executada exigia. É uma das perdas maiores e menos visíveis de uma obra, porque não aparece em relatório nenhum: o material foi comprado, foi pago, entrou na obra e simplesmente não virou obra pronta.
Ao contrário de um rendimento baixo, que aparece no avanço, o consumo excedente não aparece em nada. Aparece no resultado final, quando já não há o que fazer.
As cinco causas, que se resolvem de forma diferente
Esta é a parte mais importante do artigo. «Consumo excedente» não é um diagnóstico: são cinco problemas distintos que produzem o mesmo sintoma.
| Causa | Como se detecta | Como se ataca |
|---|---|---|
| Desperdício de processo | Recortes, sobras, perdas normais | Método, modulação, corte otimizado |
| Retrabalho | Refez-se algo já executado | Qualidade, supervisão, informação técnica |
| Deterioração no estoque | Material danificado, endurecido, oxidado | Armazenamento e rotação |
| Furto ou desvio | Falta sem explicação técnica | Controle de acesso, guarda, contagem |
| Erro de orçamento | O consumo teórico estava mal calculado | Ajustar a composição para a próxima |
Confundi-las é o erro caro. Um diretor que assume furto quando o problema é retrabalho vai colocar um vigia e deteriorar a relação com a equipe, enquanto o problema real segue.
A forma de distingui-las é cronológica. O desperdício de processo é parelho e constante. O retrabalho aparece em picos, associado a datas concretas. A deterioração se concentra em materiais sensíveis e em certas épocas. O furto costuma vir em degraus e em materiais de revenda fácil. O erro de orçamento é um desvio constante desde o primeiro dia.
Sem registro datado do consumo, as cinco se parecem.
O cálculo básico
Não é preciso um sistema de inventário. É preciso esta comparação, para os quatro ou cinco materiais que mais pesam:
Consumo teórico = quantidade executada × consumo unitário do orçamento
Excedente = consumo real − consumo teórico
Com um exemplo de bloco de concreto:
| Dado | Valor |
|---|---|
| Parede executada e verificada | 420 m² |
| Consumo unitário do orçamento | 12,5 pç/m² |
| Desperdício previsto no orçamento | 3 % |
| Consumo teórico com desperdício | 5.408 pç |
| Consumo real registrado | 5.940 pç |
| Excedente | 532 pç · 9,8 % |
Esses 9,8 % a mais sobre o desperdício já previsto são um número que dá para investigar. Sem a comparação, são 532 blocos de que ninguém vai sentir falta.
A chave do cálculo é que a quantidade executada tem de ser confiável. Se o avanço está mal medido, o consumo teórico está errado, e o excedente aparente pode ser um erro de medição e não um problema de material.
Os materiais que valem o esforço
Controlar tudo não se paga. Controle os que cumprem duas destas três condições:
- Representam mais de 5 % do orçamento de materiais
- Têm alto valor unitário ou são de revenda fácil
- São sensíveis à deterioração no estoque
Em obra tradicional isso costuma se reduzir a: aço, cimento, bloco ou tijolo, e os acabamentos de maior valor. Cinco materiais bem controlados capturam a maior parte da perda possível.
O almoxarifado, sem montar uma operação
Quatro práticas, nenhuma exige sistema.
Um ponto de entrada e um responsável. Todo material que entra é recebido, contado e registrado contra a ordem de compra. Sem isso, qualquer outro controle é decorativo.
Saídas contra frente de serviço. Que o material saia do estoque atribuído a uma frente ou serviço identificável. É o que depois permite comparar consumo contra execução daquele serviço. Sem atribuição, o consumo é um total global inútil.
Estoque conforme o material. Cimento sobre paletes e sob cobertura, com rotação do mais antigo primeiro. Aço elevado do chão. Bloco empilhado a altura razoável. É chato e evita a maior parte da deterioração.
Contagem periódica dos cinco críticos. Não inventário completo: contagem de cinco materiais, quinzenal. Meia hora, e detecta desvios enquanto ainda são pequenos.
Onde se perde de verdade
Quatro pontos que aparecem repetidamente:
Entre o recebimento e a frente. Material que chegou, foi descarregado onde deu, e se danificou ou se perdeu no transporte interno.
No corte. Peças cortadas sem planejar o aproveitamento. Em materiais que vêm em comprimentos padrão, a diferença entre cortar com critério e cortar no improviso pode ser 10 % do consumo.
No retrabalho. É a causa de excedente mais cara porque paga em dobro: o material perdido e a mão de obra para refazer. E é a que menos se registra como tal.
Nas sobras de fim de obra. Material comprado a mais que ninguém devolveu e ninguém transferiu para outra obra. Em empresas com várias obras, é uma perda totalmente evitável se alguém mantiver o registro.
O que torna tudo possível
Tudo o que veio antes se apoia em dois registros que você provavelmente já deveria ter:
- Quantidade executada por serviço, medida no dia em que se executa
- Entrada e saída de material, atribuída a uma frente
Com esses dois, o excedente se calcula sozinho e com data, que é o que permite distinguir as cinco causas. Sem eles, o excedente aparece no resultado final como um número sem explicação, e a essa altura não há o que investigar.
Perguntas frequentes
- Quanto desperdício é normal?
- Depende do material e do sistema construtivo, e convém usar os percentuais do seu próprio histórico e não os do manual. O relevante não é o nível absoluto, e sim o desvio em relação ao que você orçou.
- Vale a pena um almoxarife dedicado?
- Em obras médias, quase sempre. O custo da posição costuma ser menor que o consumo excedente que ela evita, mais os dias perdidos por material que está na obra mas não na frente de serviço.
- Como distingo furto de desperdício sem acusar ninguém?
- Pelo padrão temporal e pelo tipo de material. Um excedente parelho em todos os materiais é de processo. Um concentrado em materiais de revenda fácil, em degraus, é outra coisa. O dado objetivo evita a conversa desconfortável baseada em suspeitas.
- O desperdício pode ser cobrado do cliente?
- O desperdício previsto já está dentro do preço unitário. O adicional é seu, salvo se decorrer de causa imputável ao cliente —mudanças de projeto, informação tardia— e estiver documentado na época.
- Adianta controlar material em obra por preço global?
- Adianta mais, porque ali ninguém obriga você a medir e o excedente sai direto da sua margem. É justamente o regime onde menos se controla e onde mais custa não fazê-lo.
Chileno, desenhando para a América Latina. Do research em campo tira o que realmente importa para os clientes, e com isso monta produtos que pessoas não técnicas adotam sozinhas —jurídico, educação, contabilidade— e que aparecem na produtividade já na primeira semana.
Ver todos os seus artigos →