Memórias de cálculo: o que são e como evitar que rejeitem a sua medição
Uma memória de cálculo é o documento que sustenta a quantidade de serviço executado cobrada em uma medição. Mostra onde se mediu, com que dimensões e com que operação aritmética se chegou ao número, com referência ao projeto e à localização exata. Sem memória de cálculo, uma quantidade é uma afirmação; com ela, é uma medição verificável.
Na prática, a memória de cálculo é a peça que decide se você recebe neste mês ou no próximo. E na maioria das obras ela é montada às pressas no dia 28, reconstruindo de memória o que aconteceu três semanas antes.
O que deve conter
Uma memória de cálculo que não dá margem a discussão tem seis elementos:
Identificação do serviço. Código e descrição exatamente como aparecem na planilha contratada. Não uma descrição parecida: a mesma.
Localização precisa. Nível, eixo, trecho, estaca. Tem de ser possível parar no local e verificar. «Parede do térreo» não é localização; «parede do eixo B entre os eixos 3 e 5, nível 1» é.
Croqui. Um esquema, mesmo à mão livre, mostrando o que se mediu. É o que transforma uma lista de números em algo comprovável, e é o que mais se omite.
Dimensões e operação. Comprimento por altura, menos vãos, igual quantidade. Com os números visíveis, não só o resultado.
Referência ao projeto. Número e revisão da prancha contra a qual se mediu. Quando há várias revisões circulando, isso evita metade das discussões.
Data de execução e assinaturas. Quando se executou, não quando o papel foi montado. E o aceite da fiscalização.
Os seis motivos pelos quais ela é rejeitada
O serviço não coincide com a planilha. Você cobra algo que a planilha não contempla, ou descreve de outro jeito. Se o serviço realmente não está na planilha, não é um problema de memória de cálculo: é um preço extracontratual e segue outro caminho.
A unidade não corresponde. A planilha diz metro quadrado e você mediu metro linear, ou a planilha desconta vãos e você mediu bruto. Rejeição automática.
O croqui não fecha com o número. As dimensões do esquema não dão a quantidade informada. Costuma ser um erro aritmético honesto, e devolve o pacote inteiro do mesmo jeito.
Duplicidade com medições anteriores. O mesmo trecho cobrado duas vezes. Acontece quando não há controle acumulado por localização, e é um dos apontamentos mais difíceis de rebater porque fica no registro.
Sem aceite da fiscalização na data de execução. Este é o mais frustrante. Você mediu bem, mas mediu sozinho, e agora está pedindo que autorizem a quantidade de um serviço que já está coberto. Ninguém assina o que não pode verificar.
Serviço que não pode ser verificado em campo. Tudo o que fica encoberto —armadura antes da concretagem, instalações antes do reaterro, impermeabilização antes do contrapiso— tem de ser documentado antes de cobrir, com a fiscalização presente. Depois, não há memória de cálculo que resolva.
O erro de fundo: medir no final
Os seis motivos acima compartilham uma causa. Quando a medição acontece no fechamento do mês, todo o resto falha em cascata: reconstrói-se de memória, não há croqui contemporâneo, a fiscalização não esteve presente, e o que ficou encoberto já não pode ser verificado.
A memória de cálculo não é um documento que se monta. É um registro que se acumula.
A prática que resolve o problema é simples de dizer e difícil de sustentar: medir no mesmo dia em que se executa, e conseguir o aceite da fiscalização ali mesmo. No fechamento do mês, a medição se monta somando registros que já estão aceitos, e o processo deixa de ser uma negociação para virar uma soma.
Cinco práticas que reduzem as rejeições
- Acordar o formato antes da primeira medição. Pergunte à fiscalização como ela quer ver as memórias antes de montar a primeira. Dez minutos de conversa no início poupam semanas depois.
- Um registro acumulado por localização. Uma tabela viva onde cada trecho aparece uma única vez, com o que foi cobrado até a data. Elimina as duplicidades pela raiz.
- Fotografia datada de tudo o que vai ser encoberto. Com referência visível de localização. É a única defesa possível sobre serviço coberto.
- Aceite parcial e frequente. Que a fiscalização assine registros semanais em vez de um pacote mensal. É menos volume por vez e há tempo de verificar.
- Apresentar antes do fechamento. Se você apresenta no último dia do prazo, qualquer apontamento derruba o mês inteiro. Apresentar três ou quatro dias antes dá margem para corrigir dentro do período.
Perguntas frequentes
- A memória de cálculo é a mesma coisa que o croqui?
- Não. O croqui é uma parte da memória de cálculo. Ela inclui também a identificação do serviço, a localização, a operação aritmética, a referência ao projeto e as assinaturas.
- É possível fazer memórias de cálculo digitais?
- Sim, e a tendência aponta claramente nessa direção. O que importa não é o suporte, e sim que contenha os seis elementos, que o aceite seja atribuível a uma pessoa identificada e que a data seja verificável.
- O que faço se a fiscalização não assina as memórias no prazo?
- Documente a entrega com protocolo e data, e registre a falta de resposta no diário de obra. Uma memória entregue e não questionada dentro do prazo contratual normalmente é considerada aceita, mas isso depende do contrato: verifique antes de assumir.
- Como trato serviço executado que não está na planilha contratada?
- Não o coloque na memória de um serviço parecido. Esse caminho termina em apontamento e em desconfiança sobre todo o pacote. Trate como preço extracontratual ou fora de planilha, conforme o seu contrato, e documente a ordem que o originou.
- Por quanto tempo devo guardar as memórias de cálculo?
- Por todo o prazo de garantia e de responsabilidade contratual, que dependendo do país e do tipo de obra pode ser de cinco a dez anos. Em caso de controvérsia, as memórias estão entre as primeiras peças solicitadas.
Fundador e CEO da Paladio. Há mais de 15 anos cria produtos financeiros que impactam a vida de milhões de pessoas. Escreve sobre o que vê na obra: como se mede o avanço de verdade e onde o dinheiro se perde.
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